
A Polícia Civil do Espírito Santo investiga a morte de um paciente de 39 anos ocorrida no Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE), em Vitória, após o registro de boletins de ocorrência que apontam indícios de falsificação de uma prescrição médica usada para a administração de sedativos durante a internação.
Gilberto Aurich, lavrador e morador de Itaguaçu, no Noroeste do Espírito Santo, morreu em 21 de junho, mais de dois meses após dar entrada na unidade para tratar uma fratura na mandíbula provocada por um acidente de moto.
A suspeita surgiu depois que uma médica procurou a polícia, em 20 de abril, e informou que a prescrição utilizada para administrar medicamentos ao paciente não foi emitida nem assinada por ela. Sua assinatura teria sido falsificada por outro profissional do hospital.
Dois dias depois, em 22 de abril, a Polícia Civil abriu um novo boletim, dessa vez com base numa notícia crime protocolada na delegacia pelo advogado Renan Sales, que representa a associação gestora do hospital de urgência e emergência.
No documento, consta a informação de que imagens do circuito interno indicariam que um enfermeiro, identificado como Gerismar Silva Sousa, acessou um consultório sem autorização, utilizou um documento com assinatura supostamente falsificada e aplicou a medicação.
A Polícia Civil informou apenas que o caso segue sob investigação.
Gilberto sofreu um acidente de moto no dia 4 de abril, em Itaguaçu. Segundo a família, ele caiu depois que o descanso da motocicleta cedeu ao chegar em casa.
"Ele chegou aqui em casa, na residência dele, aí a moto escorregou o descanso, ele caiu e teve uma fratura no queixo. Na segunda, ele procurou a dentista em Itaguaçu, aí a dentista tirou um raio-x e falou que estava quebrado o queixo. Tem que procurar um hospital urgente", contou a mãe, Hilda Aurich.
O paciente foi encaminhado ao Hospital Estadual de Urgência e Emergência, onde aguardava cirurgia bucomaxilofacial.
Durante a internação, chegou a enviar uma mensagem a um amigo relatando a demora para o procedimento.
"Tô quase doido aqui dentro. Sem comida, mandaram fazer uma dieta, mas veio um médico dizer que só vai operar sábado ou domingo", disse Gilberto.
Segundo documentos obtidos, uma prescrição registra que, no dia 11 de abril, Gilberto recebeu quatro medicamentos: haloperidol, clorpromazina, prometazina e diazepam, com a justificativa de agitação.
Suspeita de falsificação
A médica Paola Morellato Prandi registrou o Boletim de Ocorrência em 20 de abril.
Segundo o documento, baseado no relato da profissional, imagens do sistema interno do hospital mostrariam que o enfermeiro entrou na sala da médica, utilizou o login profissional dela para reimprimir uma prescrição médica e, posteriormente, teria falsificado a assinatura no documento.
O boletim afirma ainda que a medicação foi administrada com base nessa prescrição.
Embora o registro policial não identifique nominalmente o profissional e mencione uma "paciente", no feminino, o boletim gerado após a notícia crime do hospital relaciona o episódio ao caso de Gilberto e identifica o enfermeiro.
No documento, o advogado do hospital informou que o profissional "não integrava a equipe responsável pelo paciente e encontrava-se lotado em setor diverso", acrescentando que a médica cujo nome aparece na prescrição negou ter atendido Gilberto ou assinado o documento.
O registro também afirma que a apuração interna, incluindo imagens das câmeras de segurança, apontaria que o enfermeiro entrou em um consultório sem autorização e saiu do local portando a prescrição, havendo indícios de falsificação documental.
O advogado da família, Leandro Sarnaglia, acompanha o caso.
"Nós vamos acompanhar o inquérito policial para ficar bem claro, bem delimitado a responsabilidade criminal de cada envolvido neste evento", garantiu.
Morte do paciente
Gilberto morreu na madrugada de 21 de junho.
De acordo com a certidão de óbito, as causas registradas foram tromboembolismo cardiopulmonar, sepse, pneumonia e fratura de mandíbula decorrente de acidente motociclístico.
A família afirma que o quadro clínico piorou após a administração dos medicamentos. Essa relação é um dos pontos investigados pela Polícia Civil e não foi confirmada pelas autoridades.
"Eu não aceito isso, meu filho foi bem, para voltar dentro de um caixão, eu não aceito isso", disse Hilda.
A mãe também relatou o impacto da perda.
"Eu choro, não durmo direito, eu não como direito. É muito triste viver assim, porque a gente vivia de porta a porta, ele me ajudava, o que eu precisava ele estava sempre por perto. E é uma dor insuportável quando a mãe perde um filho", lamentou.
O que dizem os envolvidos
Além do enfermeiro Gerismar Silva Sousa, a médica Paola Morellato Prandi foi procurada durante três dias consecutivos, mas não respondeu aos contatos da reportagem.
Nesta segunda (29), a médica mandou uma mensagem de texto informando que o advogado dela iria procurar o g1, mas até a última atualização da reportagem, não houve contato.
O advogado Renan Salles, que representa a associação gestora do hospital, informou que apenas a assessoria da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) falaria sobre o assunto.
A Polícia Civil informou que a investigação está em andamento e não divulgou detalhes.
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